energia de virada
"ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro"
Fim de ano traz uma ressaca afetiva louca, né? Dia 24 é mais Natal do que dia 25, ano novo começa em fevereiro do que realmente em primeiro de janeiro e a nostalgia bate forte com a emoção de alguma canção tocando ou aquela lembrança específica que fica reprisando na mente… Tudo traz uma esperança enorme para o ano que está por vir.
Mas a reflexão gera promessas que geram planos que geram expectativas no lugar errado.
Depositamos fé em realidade irreais com versões de si que nunca foram cultivadas para serem colhidas; desejamos paz enquanto ainda não cortamos relações e hábitos abusivos em nossas vidas; inchamos o coração com todos os recomeços que podem começar do “jeito certo” e usamos cores específicas no Ano Novo para atrair instantaneamente seu significado. E não vamos esquecer do intolerante que pula sete ondas no mar sem abrir a cabeça para o que é diferente da própria convicção!
Não sei se é a natureza curiosa do ser humano que o faz acreditar no melhor que mais 365 dias podem trazer ou a plena fé em uma roupa íntima, uvas ou cores, mas sei que: tudo se torna ilusão quando acreditamos que o poder está no externo.
Parece injusto questionar um costume que nasce conosco, esse de Ano Novo, vida nova!, mas entendo a urgência de crer que, de alguma forma, a culpa é toda do saturno retrógrado e, ainda sim, reconheço nossa parcela de responsabilidade nisso.
As últimas notícias de dezembro me deixaram meio amarga, confesso, mas o que os últimos dígitos da data podem mudar? Sério, o racismo continuará de mãos dadas com a misoginia e a homofobia na linha de frente enquanto tiros e mais tiros são mirados em nós; continuaremos mendigando por dinheiro para realizar alguns sonhos impossíveis — como se formar na faculdade ou comprar uma casa própria — e aqueles certos amigos continuaram nos adoecendo porque a porcaria da negligência na infância nos faz acreditar que precisamos priorizar o bem-estar do outro do que o nosso e, quando quebramos isso, nos tornamos parte dos EEE’s (egoístas egocêntricos ediotas).
Tenho muita esperança e fé (e a sensação de que já escrevi isso antes), só que não dá para fantasiar que um ano novo é mais determinante para as transformações que desejamos do que o nosso consciente.
Preciso aprender a me despedir de pessoas vivas, preciso me forçar a querer ser feliz como nunca fui, preciso me acostumar com o “não” saindo da minha boca, preciso abraçar a minha sensibilidade e recolher o que o outro marcou sem que eu permitisse e preciso, urgentemente, parar de fazer bico quando estou concentrada demais em alguma coisa. E sabe quem me ajudará a completar tudo isso? Não é a cor da minha roupa e nem a música nos stories que eu postei, hein…
Se eu quero que 2026 seja bom, preciso buscar oportunidades que me ofereçam vivências óbvias e “inóbvias” em toda centelha de curiosidade que habita em mim de encontrar felicidade numa coisa pequena. Cabe a mim permitir que o meu corpo pise em lugares desconhecidos apesar da desconfiança assim como só eu posso ditar o que e quem afetará minhas noites de insônia.
Sem papo de coach, meritocracia ou positividade tóxica por aqui. Falo de deixar que o nosso cérebro aceite o prazer em estar vivo que merecemos; a gente precisa aprender a desacelerar e aproveitar os momentos que, no fim do ano, entram para a retrospectiva de melhores. E, novamente, sem conversa que desmereça a dificuldade da vida de cada um.
Por exemplo, já percebeu que nos acostumamos a comer rápido e com algum estímulo? Nós sentimos a delícia da refeição, mas ela se torna só mais uma entre muitas outras porque o mais marcante do almoço é o youtuber favorito para comer assistindo. E já notou que escovamos o dente na pressa? Tirando o atraso de alguns dias, calma aí e para de tentar chegar na raiz do seu dente! Sem contar os exercícios, a reeducação alimentar e o cronograma de estudos que só pode começar na segunda-feira.
Enquanto atrasamos nossas tentativas de recomeços esperando que o ponto de partida perfeito nos livre de maus percalços e juramos que o amanhã oferecerá uma promessa melhor, encarnamos um dos principais fundamentos que o capitalismo usa para continuar nos adoecendo: a ideia de que precisamos ser capazes de produzir algo extraordinário para, só então, merecer uma coisa boa — seja reconhecimento, descanso, validação ou realização pessoal.
Inclusive, todos os meus textos possuem incontáveis rascunhos de cada parágrafo porque, aparentemente, todos nós precisamos estar constantemente se superando e transformando o prazer em compromisso para ser lido como uma pessoa funcional ou útil. Ou para, no fim, chegarmos lá, mas isso é assunto para outro texto.
O que quero dizer é que aceitamos, sem querer, a infelicidade.
Fingimos aceitar o bem e o mal do mundo enquanto reclamamos da rotina que exausta a mente ao ponto de pensarmos mais na morte do que na vida — ou vivermos mais dentro de nossas cabeças pela alegria que só existe ali.
2026 tem tudo para ser um ano bom. Literalmente e infelizmente, só depende de nós.
Desejo um bom ano para o leitor que esteja chegando ao final dessa leitura, mas desejo ainda mais que a lição de uma vida toda possa entrar na cabeça ainda esse ano: você pode e merece aceitar as possibilidades de coisas boas que podem te acontecer. Espero que não tenha usado branco na virada esperando que o universo, Deus, Buda ou a lei natural proporcione a realização dos seus desejos.
Muito obrigada por ler até aqui!
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Que eu possa fazer desse ano melhor que os outros dentro do que está ao meu alcance 🙏