do sudeste ao sul: drogas e bebidas
diferenças culturais que distorcem a realidade.
Não acredito que seja realmente necessário fazer esse adendo, mas irei fazer mesmo assim: tudo que eu escrever nesse texto não é sobre a tia do fulano que mora em São Paulo e é diferente do modelo apresentado aqui, nem foca na família enorme de gaúchos que é militante e protesta pelo real progresso. O meu recorte social ilustra um olhar amplo e obviamente influenciado pelas minhas experiências + saberes sobre padrões que observamos ao analisar o modo de viver, pensar e ser das pessoas : )
Enquanto minha mãe e eu conversávamos sobre a normalização da bebida alcoólica vs a demonização das drogas que pessoas da região sul têm, percebemos também que existe uma diferença de valores em contraposição aos sudestinos muito interessante.
Olhe, minha família é de Santa Catarina, mas moramos em alguns estados do Brasil que nos permitiu olhares diferentes sobre a cultura de uma região para a outra — claro que estávamos nos interiores, mas, pessoalmente, acredito que a concentração de pessoas nas capitais não camufla a forte identidade que se manifesta nas cidades menores — e há, obviamente, muitas questões estruturais que demonstram a interferência da construção de cada região na atualidade, porém, se vê distante disso.
Vamos lá, sabe o moralismo sulista? Aquele com fama de afastar todo sinal de diversidade e desenvolvimento social capaz de humanizar as pessoas como iguais em direitos… Ele é firmado em pilares conservadores e privilegiados que são responsáveis por banalizar o que é errado com a desculpa de ser tradição; o homem é o provedor, energia feminina é sobre submissão à outra existência e beber toda semana até estar cambaleando é normal. Contudo, onde quero chegar é que essa distorção de hábitos e costumes é seletiva, pois, o mesmo não se pode dizer sobre sexo (que sempre foi feito) e drogas (que também sempre foram usadas, mas com a repreensão de algo pior do que bebida alcóolica).
Não defendo a insensatez da bebida alcóolica e tão pouco das drogas, apenas questiono as duas medidas sobre um mesmo peso que o sul possui sobre problemas com bebida ou droga. Enquanto, por sua vez, há uma troca de entendimento sobre as substâncias quando partimos para o sudeste.
Principalmente nos últimos tempos, todos temos sentido o horror na romantização do tabagismo e dependência química de entorpecentes, não é? Muitas pessoas conversam em público sobre suas dificuldades além do superficial no uso dessas substâncias, mas, por consequência das redes sociais que influenciam o bem e o mal no extremo e a facilidade de saber onde encontrar, ainda é visto como algo cool ou normal usar deliberadamente e excessivamente cigarros eletrônicos ou outros tipos de drogas — tudo pelos olhos vermelhos aesthetic ou problemas que somem sob o efeito delas.
Não sei vocês, mas, tirando o preconceito, não vejo esse uso de drogas sendo normal no sul e nem o excesso da bebida alcóolica sendo algo bom no sudeste.
Seguido por seus pilares, os sulistas não encaram a bebida alcóolica como perigosa; ela sempre esteve presente no domingo com churrasco e ajudando os mais velhos ou mais novos a se divertirem… mas tirem as crianças da sala porque vamos falar do tio drogado que foi internado de novo. O conservadorismo, fomentado pela ideia de superioridade, não culpa aquilo que faz parte de seu tradicionalismo, já as drogas, que não podem ser usadas em família, são demonizadas como se fossem piores que a bebida quando o vício entra no papo. E no sudeste, mais precisamente em São Paulo, as coisas não funcionam assim.
O uso de entorpecentes é parte da cultura que se instalou precariamente nos espaços e construiu um senso de “isso até pode, feio fica quando bebe e se passa”, entende? Os pilares dessa região se desenvolvem na malandragem que foi necessária para sobreviver, o importante não é parecer bem, mas estar bem — coisa que o sul se opõe — e a droga entra como um meio de vender ou consumir pelas próprias vivências.
No sul, não vejo ninguém drogado na rua. No sudeste, não vejo ninguém tentando se equilibrar em plena uma hora da tarde.
Ainda na conversa com a mãe, não encontramos muitas respostas, só mais possíveis explicações. Mas é fato que quando o excesso acontece repetidamente, não há nada para ser normalizado.
O vício, seja de bebidas ou drogas, destrói a vida de quem usa e está ao redor. Não é porque as coisas sempre foram de um jeito que está tudo bem seguir sem questionar os ciclos ruins que gerações vão carregando sem perceber; a naturalidade de tentar preencher vazios com o que proporciona breves momentos de leveza.
Do sudeste ao sul e no Brasil inteiro, as formas que encontramos de nos divertir e nos distrair claramente ultrapassam os limites saudáveis para todos.
Quero deixar claro que não sou uma moralista sulista, embora seja sulista. Esse texto traz o extremo que precisamos reconhecer e frear, mesmo com as regalias de uma sociedade tão esgotada, uma vez que acaba só fazendo mal aos envolvidos — e nem mesmo recuso a realidade de muitas famílias nessas regiões que enfrentam dificuldades para lidar com a bebida alcoólica e as drogas.
Muito obrigada por ler até aqui!
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Eu adoro ler toda pauta sobe bebida alcoólica, porque real: eu me frustro quando vejo alguém as 8h da manhã de uma segunda tomando cerveja ou adolescentes sendo levados por esse caminho com orgulho e alguns pais apoiando ainda. Eu comecei a beber para me enturmar. Nunca ninguém chegou em mim e me aconselhou a questionar o porquê da minha decisão de beber. Não estou dizendo que eu faria diferente naquela época se soubesse (até porque adolescente é cabeça dura), mas é bom impor questionamentos logo cedo!
lety, vc passou uma reflexão muito interessante. os dois extremos n ajudam ninguém em nada! ambos reforçam essa abstração diante dos vícios.
sou de sp, morei em mg por 12 anos e voltei. o que vc apresenta no texto é um pensamento semelhante que tive quando visitei uma amiga em curitiba